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PEQUENO TRATADO SOBRE A INFELICIDADE

por Keila, a Loba, em 23.05.06
Agradeço à Nancy Moisés a gentileza e generosidade em conceder aos Uivos esse selinho mágico. Obrigada, querida!


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aurasonho.jpg





Estou re-editando esse post porque achei oportuno publicar na época tanto quanto agora. Embora que eu não esteja remoendo as lembranças amargas do passado, poderia falar aqui sobre imúmeras coisas que a vida tem me trazido, desde os pedacinhos de paz a necessidade incontida de transformar aquilo que me dói, que me entristece. Mas isso é coisa para o presente e para o futuro, pois o que mais admiro no ser humano é a sua incompletude. Quem sabe um dia seremos e saberemos conquistar a tão sonhada felicidade, hein?





CENA 1




Acordei assustada na madrugada. Não lembro direito o que havia sonhado, mas a memória ouviu e guardou o grito desesperado que me fez acordar no meio da noite, enquanto pedia aos meus pais que me salvassem. Foi terrível!


Levantei ainda trêmula, tomei água, fui ao banheiro, passei creme nas mãos, mas percebi que havia perdido o sono de vez. Então resolvi fazer as minhas orações na madrugada quente e estrelada, ritual que há muito eu não praticava.


Sentada na escada, com o terço na mão, lembrei dos meus pais e quis receber deles o colo que me aquietaria. Na verdade, chorei pela ausência de ambos naquele momento de tristeza e aprendizado, oportunidade em que poderia rever algumas questões que, ao final das contas, foi por causa “delas” que o sono havia me abandonado.


Vi as primeiras estrelas sendo retiradas de cena, ouvi os pássaros acordando, percebi os gatos voltando para suas casas ao romper os primeiros raios do Sol, mas sentia um aperto no coração e uma angústia tão justificada quanto presente. E orei com fervor: “Meu Deus, quando tudo isso vai passar para que eu possa me sentir feliz?”.




CENA 2




Minutos depois, no trabalho...
....Ela estava sentada no banco de espera de forma quase imperceptível. O corpo largado e entregue não ocultava a tristeza profunda que trazia também no olhar.


Quando entrou na sala, tímida e com os olhos fixos no chão, perguntei seu nome e ela começou a chorar. Quis saber por que chorava, e ela me respondeu “Tenho câncer, e o médico me deu só mais alguns dias de vida”.




CENA 3




Ela está na fila de espera por um colete ortopédico há mais de um ano. Se sente feia, diz ser muito magra, tem os cabelos encrespados e se queixa de não ter nenhum atrativo para os rapazes, e ainda por cima tem uma escoliose que agrava sua estética corporal.


Quando perguntei o que a faria feliz naquele exato momento, ela me respondeu com os olhos marejados: “Felicidade seria receber hoje, agora, o colete que eu preciso para tentar me sentir gente; e eu não seria esse bicho horroroso que sou”.




CENA 4




Ele estava desesperado para falar com o médico. Percebi suas mãos trêmulas, o suor que molhava a roupa, o semblante estressado e inquieto, até que resolvi chamá-lo para tomar uma água e chá. Mas a curiosidade foi maior, e perguntei por que estava tão nervoso; e ele me respondeu: “Venho aqui por causa do Dr. Raimundo, e ele me aconselha a não fazer besteira. Quando ele não vem, sinto falta de quem cuide de mim. Eu não usaria drogas se eu tivesse alguém que se importasse comigo”.




CENA 5




Ela passou pela porta da minha sala apressada e com uma fisionomia desfigurada para alguém dócil e amiga. Eu quis saber os motivos emocionais do seu sofrimento, e ela me respondeu com o olhar perdido: “Eu seria menos infeliz nessa vida se o resultado dos exames indicasse que posso ser mãe. Uma mulher que não pode carregar um filho na barriga, amamentá-lo, ouvi-lo chamar mamãe...”.




CENA 6




Ele chegou irritado e brigando com todos do grupo. Ameaçou levar a mulher para casa à força, fez intriga, esbravejou, e todos sentiram o forte cheiro do álcool saído de sua boca.


Perguntei por que estava tão feroz e infeliz, e ele me respondeu, “Não tenho mais vontade de viver porque bebo todos os dias. Se eu deixasse a cachaça de lado, eu não seria esse bêbado detestado por todos!”.




CENA 7




A professora de artesanato perguntou quem gostaria de participar do próximo curso, que terá início na próxima semana, e percebi que uma das pessoas interessadas se retirou apressada da sala. Alguma coisa estava acontecendo; então, fui ao seu encontro.


Triste e chorosa fez sua revelação: “Hoje é um dia de muita tristeza na minha vida! Há três anos atrás eu perdi o grande amor da minha vida em um acidente de trânsito, e desde então, nunca mais consegui gostar de ninguém ou ser gostada por alguém. Me sinto só e sem amor, motivo de muita tristeza e infelicidade, pois não tenho um par”.




CENA 8




A diretora do posto de saúde onde trabalhei falava com alguém ao telefone. Observei seu corpo rígido enquanto segurava o fone, o olhar de maledicência, as palavras que não saíam por medo ou respeito, e a conversa foi encerrada com um frio: “Por que o senhor não vem aqui e fala isso à comunidade, doutor? Eu não quero apanhar, já sou muito velha pra isso!”.


Perguntei por que estava se sentindo tão irritada, e ela me disse: “Só poderei ser feliz no dia que eu não precisar me matar num posto de saúde por causa de uns trocados!”.




CENA 9




E VOCÊ, quais os seus motivos para não se sentir feliz?



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publicado às 00:09



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