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UM CONTO INDIANO

por Keila, a Loba, em 08.08.06
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Em homenagem à Luzia, uma mulher forte e valente que lutou contra o câncer por longos sete anos e veio a falecer de um ataque cardíaco no dia 04/08, um dia depois de ter entrado como madrinha de sua filha na festa de conclusão do curso de direito pela Universidade Federal do Ceará. Por esse motivo, os pacientes do Programa Reviver e a Loba estão de luto.

Se a partida da Luzia chegou em dia inoportuno para a tristeza, se viva estivesse ela nos diria que se submeteu aos mais dolorosos tratamentos, viu seu cabelo cair, tomou drogas das mais pesadas e destruidoras para que a doença permitisse a participação dela na formatura da única filha. Como todas as vontades que se materializam porque saem dos mais recônditos cantinhos da alma, ela conseguiu! Onde estiver, Luzia está em paz e feliz.



Certa vez, uma mãe saiu correndo em desespero pelas matas à procura da casa do grande mestre Buda. Seu sofrimento era tão intenso que ao passar pelas veredas e ruas, os aldeões saíam à porta das casas para saber o que havia acontecido à pobre mulher.

Gritando alto enquanto pedia ajuda, ela conseguiu finalmente chegar à casa do mestre. Sua dor era tão profunda e lancinante que caiu ao chão logo que a porta da choupana foi aberta pelo mestre. Este a levantou, convidou-a a entrar e, calmamente, pediu que relatasse seu desespero:

- Meu único filho está morto, mestre! Ele era tudo em minha vida! Nem eu mesma sei como estou suportando tão terrível dor. Dou minha vida e tudo o que possuo a vê-lo inerte e sem vida em minha casa. Por me encontrar em desespero, soube que o senhor poderá trazê-lo de volta para mim, por isso vim implorar sua misericórdia. Traga-o, a qualquer custo.

E a mulher pôs-se a gritar e se contorcer em lágrimas.

Percebendo que palavra alguma faria com que aquela mãe aceitasse a morte do filho, sabiamente Buda falou:

- Mulher, levanta-te e escuta! Trarás para mim trigo, cevada e lavanda frescos. Mas, escuta com atenção: só terá efeito se estiverem frescos e adquiridos em casas onde as famílias não tenham perdido nenhum dos familiares, entendeu?

- Só isso, mestre? - disse a mulher, que logo tratou de sair correndo em busca dos ingredientes pedidos.

Chorando, a mulher chegou à primeira casa:

- Senhora, poderia ajudar uma pobre mãe a receber seu filho de volta, dando-me trigo, cevada e lavanda frescos?

- Pois não, senhora! Voltou rápido, com um punhado do que foi pedido e prontamente entregue.

Foi quando a mãe lembrou de perguntar se alguém daquela família havia partido, tal e qual o seu filho.

- Oh, minha senhora! - respondeu a mulher. Há poucos dias atrás meu pai morreu gravemente enfermo. Sofreu dias e noites até ser levado pelos anjos do Senhor. Como sou viúva e mãe de sete filhos, meu pai nos dava o sustento todos os dias, e agora nem sei como faremos para suportar a dor da sua partida e lutar pelo pão de cada dia.

A mãe lamentou e saiu chorando em direção a uma outra casa.

- Senhor, tenha compaixão de uma pobre mãe que acabou de perder seu único filho! Dê-me trigo, cevada e lavanda frescos e, por favor, diga-me se alguém dessa casa também já partiu!

O homem começou a chorar e, emocionado, falou:

- A senhora está vendo essas crianças? - Apontou para os filhos, tristes e magros. Pois bem, não foram devidamente amados pela minha esposa, que foi embora, e acabou morrendo de tifo no meio dessas veredas. Eu a amava, mas ela se dizia pobre demais e queria luxo para si e para os filhos, coisas além das minhas posses, e acabou morrendo antes do tempo.
E entregou um pacotinho com o que havia sido pedido.

- Não precisa me entregar isso, senhor - disse a mãe do menino morto - Só posso levar ao mestre ingredientes que não tenham partilhado do sofrimento da perda, algo que nós dois já conhecemos. Portanto, procurarei uma outra casa.
E saiu correndo, ainda mais desesperada, à procura de outra residência.

E sua busca continuou por todas as casas da vila onde morava, também pelos vilarejos vizinhos, tendo a mãe batido às portas com visível cansaço e desesperança. Ao fim do dia, já exausta e um pouco conformada, a mulher retornou à casa do Buda:

- A procura foi grande, a lição foi árdua, o desespero maior ainda, mas agora eu compreendi que a minha dor não é solitária. Há tantos amargando a fome, o abandono, a doença, a solidão, e ainda têm que suportar a agonia da morte! Eu não tenho meu filho, mas tenho marido, somos jovens e podemos ter outros filhos. Sabemos que ninguém preenche o lugar e o vazio dos que amamos, mas aprendi que aceitar é um começo.

Agradeceu e foi caminhando lentamente para sua casa.

Adaptação dos Contos do Alquimista, Paulo Coelho


Obrigada ao meu amigo Guerreiro, Roberto Pietro, pelos presentes, pela visita e presença sempre marcantes


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