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IDÉIAS RECORTADAS DE ROLLO MAY, “O HOMEM À PROCURA DE SI MESMO”.

por Keila, a Loba, em 08.03.12

 

 

Decidi deixar aqui um recorte das idéias de Rollo May porque elas são intrigantes, mas também porque tenho me observado acomodada e passiva além do que deveria nos últimos dias, já que me considero uma pessoa inconformada com códigos, algumas regras e leis que, a meu ver, chegam a ser ridículas.

 

A primeira pergunta é: como viver em rebanho numa sociedade onde as pessoas se unem por medo do outro, e cada um se refugia em seus iguais? Hemann Hesse

 

 A segunda é: como crescer, manter ideiais e sonhos em uma sociedade marcada pele passividade, conformidade e apatia?

 

Se alguém souber responde-las, por favor, deixem suas "receitas" para que eu e outros possamos aprender com elas.

 

 

 

O problema fundamental do homem, em meados do século XX, é o vazio.  Muita gente ignora o que quer, mas também que frequentemente não tem idéia nítida do que sente. Quando falam sobre falta de autonomia, ou lamentam sua incapacidade para tomar uma decisão, torna-se logo evidente que seu verdadeiro problema é não ter uma experiência definida de seus próprios desejos e necessidades.

 

          O que as leva a buscar ajuda talvez seja, por exemplo, o fato de romperem  sempre seus relacionamentos amorosos, ou não conseguiram concretizar seus planos de casamento, ou a insatisfação com o companheiro escolhido. Mas não é preciso falar muito para revelar que esperam que o cônjuge atual ou futuro preencha uma falta, um vácuo no seu íntimo e ficam ansiosos e zangados quando ele ou ela não o conseguem. Em geral, falam fluentemente sobre o que deveriam desejar – completar um curso superior, arranjar ou mudar de emprego, apaixonar-se, casar, ter filhos – mas logo torna-se evidente, até para eles, estarem descrevendo o que os outros – pais, patrões, professores – deles esperam e não o que realmente desejam. É como se alguém me dissesse: “Sou apenas uma coleção de espelhos refletindo o que os outros esperam de mim”.

 

          Não há muito, um estranho incidente foi registrado pelos jornais de Nova York. Um motorista de ônibus do Bronx, certo dia, simplesmente saiu com o veículo vazio e só foi apanhado pela polícia dias depois, na Flórida. Explicou que, cansado de dirigir na mesma linha diariamente, decidira viajar. Enquanto o traziam de volta, a companhia em que trabalhava não sabia o que resolver a seu respeito – se devia ou não puni-lo. Quando chegou ao Bronx estava célebre. Uma multidão de pessoas, que jamais o vira, estava a sua espera. As pessoas se identificaram com o vazio do motorista do Bronx e vieram confirmar essa identificação formando um grupo solidário, cuja mensagem era nítida: Eu sinto a mesma coisa e sofro pelo mesmo motivo, mas você teve a coragem de dizer fazer alguma coisa diferente. Pronto! O motorista transformou-se em herói.

 

 

           Os que vivem uma existência vazia suportam a monotonia somente com uma explosão ocasional – ou pelo menos identificam-se com a explosão de alguém. Em alguns círculos, o vazio é até transformado em objetivos, sob o disfarce da adaptação. Isso é ilustrado de maneira mais impressionante na revista Life Magazine, no artigo “O problema da Esposa”.

 

             Resumindo uma série de pesquisas que foram publicadas pela primeira vez em Fortune, relativas ao papel das esposas de diretores de grandes empresas, o artigo demonstra que a promoção do marido depende muito da mulher mostrar-se adaptável aos padrões da corporação. Hoje em dia a esposa de um grande e importante diretor é investigada, com discrição ou abertamente, precisa ser muito sociável, não intelectual, nem destacar-se de maneira alguma, e possuir um radar interior capaz de ouvir, perceber, se antecipar e mudar todas às vezes que o ambiente e as pessoas indicarem nova adaptação.

 

              O êxito da boa esposa não da maneira como usa seus talentos, e sim de como e quando deve ficar passiva. Mas a regra que transcende a todas as outras, afirma a Life, é: Não se destaque. Faça o mesmo que os outros. Em tempos mais competitivos e primitivos, todos queriam passar à frente dos demais. Hoje, a idéia é acertar o passo. Em compensação, por tamanha dedicação, a corporação “cuida” de seus membros e lhes dá seguro de vida, férias planejadas, e assim por diante.

 

              Os editores de Fortune confessam que os resultados são assustadores. Aparentemente a conformidade está sendo elevada a algo parecido com uma religião... Para muitos, hoje em dia, o vazio passou do tédio à sensação de inutilidade e desespero, que contem muitos perigos. O fato é que o ser humano não pode viver muito tempo no vácuo. Se não estiver evoluindo em direção a alguma coisa, acaba por estagnar-se; as potencialidades transformam-se em morbidez e desespero e eventualmente em atividades destrutivas.

 

              O vácuo interior é o resultado acumulado, a longo prazo, da convicção pessoal de ser incapaz de agir como uma entidade, dirigir a própria vida, modificar a atitude das pessoas em relação a si mesmas, ou exercer influencia sobre o mundo que nos rodeia. Surge assim a profunda sensação de desespero e futilidade que a tantos aflige hoje em dia. E, uma vez que o que a pessoa sente e deseja não tem verdadeira importância, ela em breve renuncia a sentir e a querer. A apatia e a falta de emoções são defesas contra a ansiedade.

 

              Erich Fromm observou que hoje em dia as pessoas deixaram de viver sob a autoridade da igreja, ou das leis morais, mas submetem-se a autoridades anônimas. A autoridade é o próprio público, mas esse público é uma reunião de pessoas, cada qual com seu radar ligado, que se formam para descobrir o que e se alguém pensa, o que faz e porque faz, para então atacar. Esse estilo de vida parece uma guerra – atacar -, mas não há necessariamente um inimigo se defendendo ou também atacando. Há apenas um sujeito atacando os outros porque, em sua interioridade, o vazio em que vive o obriga a reagir. No final, o que temos é o nosso vazio coletivo.

 

 

               Temos bons motivos para nos assustarmos com essa situação de conformidade e vácuo individual. Há

 duas décadas atrás, o vazio ético e emocional da sociedade europeia foi um convite aberto para o surgimento de ditadores fascistas.

 

* Rollo May: O Homem à Procura de Si Mesmo, 14a. Edição - Editora Vozes

 

 

 

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