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CUIDAR DO QUE AINDA NÃO ADOECEU

por Keila, a Loba, em 23.10.07
À Mary, do Casal de Lobos, http://casaldelobos3.zip.net/, deixou esse selinho para ser entregue aos amigos que têm amor ao que escrevem e compartilham com os amigos, por isso indico 5 blogs amigos para pegá-lo e ostenta-lo, mas está disponível para quem quiser. Obrigada, querida.

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À Bia, http://somentebia.blogs.sapo.pt/

À Jackie, http://abcdejac.blogspot.com/

O Lino Resende, http://www.linoresende.com.br/blog/

O Edson Marques, http://mude.blogspot.com/

O Oscar Luiz, http://oscar-vg.blogspot.com/


Éramos apenas um grupo de 38 pessoas de segunda e terceira idades portadoras de depressão, câncer, diabetes, hipertensão arterial, lues e artrite que deveriam ter viajado dia 16/10 à Bahia para mostrar aos longevos e doentes daquele estado a ginástica de baixo impacto, oficina da gargalhada e roda de palhaços em ginásio poliesportivo ou centro de saúde em Salvador. E os pacientes estiveram realizando consultas, avaliações médicas, exames, tratamentos, regimes, medicação e exercícios desde o início do ano; e toda essa “olimpíada” tinha por finalidade mostrar que cuidados médicos, trabalho, parceria, boas condições físicas e clínicas e um governador sensível permitiriam uma mostra interessante e inusitada.

Mas os dias felizes que antecederam a viagem foram marcados pela comoção, lamento e choro na manhã de 19 de outubro, quando representantes do governo “trucidaram” um sonho coletivo de gente velha, doente e carente argumentando indisponibilidade de transporte e falta de vontade política.

Não deixamos apenas de viajar como poderia parecer a alguns, mas deixamos de trocar experiências com longevos e doentes de outro estado num episódio que diria, com uma linguagem alegre, simples e universal, que É URGENTE CUIDAR DO QUE AINDA NÃO ADOECEU ANTES QUE A POLÍTICA, O DESINTERESSE PELAS QUESTÕES ESSENCIAIS E O DESCASO ADOEÇAM UM NÚMERO CADA VEZ MAIOR DE PESSOAS.

Para que entendam o que aconteceu, deixo abaixo o último ofício enviado ao Governo do Estado do Ceará.


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Fortaleza, 19 de outubro de 2007.

Senhor Chefe de Gabinete do Governo do Estado do Ceará, Dr. Ivo Gomes.


Os pais costumam dizer aos filhos que pessoas de sucesso tomam decisões; que pessoas objetivas, criativas, determinadas e comprometidas constroem um trabalho pessoal e profissional forte, seguro e de reconhecimento, e deixam ensinamentos dessa natureza, como legado de suas vidas, para o mundo e posteridade. Os filhos crescem e fazem dessas orientações verdadeiros emblemas de vidas, e em algum trecho descobrem que isso é real, faz bem, e é assim que se formam os grandes líderes.

Com o passar dos anos, os adultos descobrem que um número expressivo de pessoas que fazem pouco esforço para transformar seus mundos pessoais e a realidade de outros também se dão bem na vida, e essa outra via forma líderes que não são obrigatoriamente ruins, mas estão fadados ao fracasso.

Nietzsche dizia que milhões de vidas se deixam apenas conduzir por outros sem questionar, sem pedir, sem cobrar, sem querer lutar e compreender o processo, e essas vidas são na verdade pessoas que, quando se importam, querem apenas ter o que comer, o que vestir e saber em quem jogar confete. Milhões rastejam em seus esforços, mas outros milhões de pessoas querem modificar visões de mundo que envolvem aspectos sociais, políticos, educacionais, pessoais, filosóficos, religiosos, éticos, morais, trabalhistas, ecológicos e de relação consigo e com a natureza, e essas pessoas não podem ser ignoradas.

Realidades distintas permitem uma reflexão pessoal: onde, porque e como as coisas desandaram a ponto de 40 pessoas doentes ficarem sem resposta governamental, quando exaurimos todas as tentativas de negociação e de aproximação com o Governo do Estado do Ceará? Alguns me dizem que “reles” servidores públicos jamais seriam ouvidos nos gabinetes de governadores e de secretários; que seria muita audácia ver gente importante se voltar para atender um grupeto de velho, doente e pobre sem ninguém politicamente “forte” para conduzir contatos e abrir caminhos nos gabinetes; que querer o que estamos querendo é muito além do que somos. E eu pergunto, preocupada: precisaríamos de fato ter alguém politicamente muito forte para abrir caminhos e conduzir os anseios de um grupo de longevos, doentes e carentes numa viagem para a troca de experiências em que estaríamos falando – e falando muito bem – sobre as ações do nosso governo?

“Sim, seria necessário ter aberto os caminhos com antecedência em apurada conversação política para que esse intercâmbio tivesse acontecido”, alguém poderia dizer. Me atrevo a perguntar: Quando o gabinete do governador Cid Ferreira Gomes nos receberia, ou receberia todos os pacientes do Programa Reviver, para que nos apresentássemos meses atrás e em tempo hábil? E o trabalho das Secretarias de Ação Social e Combate a Pobreza, Saúde, Turismo e Cultura, e o Gabinete do Governador Jaques Wagner não somaram forças fortes o suficiente para que o Governo do Ceará deliberasse sobre a questão do transporte? Não teria sido mais fácil ter cedido um ônibus como resposta? Apenas um ônibus?

É fato que encontramos várias portas fechadas enquanto estivemos solicitando ajuda política e solidária, mas não creio que ter encerrado as negociações e aceito o fracasso teria sido uma boa resposta ou resolução do caso. Se assim fosse, muitas vidas seriam perdidas porque poucos se importam com muitos; muitos não estariam ocupando cadeiras importantes em todos os segmentos sociais e políticos, e tantas histórias pessoais não estampariam campanhas de incontáveis candidatos nos meios de comunicação – histórias que muitas vezes provocam lágrimas de comoção quando contam sofrimento e mãos que ajudaram nos momentos cruciais.

Numa alusão à viagem que fizemos à Recife, alguém poderia dizer que uma segunda é exagero. Poucos deixariam de amar uma segunda vez porque foi eterno e único enquanto durou. Deixaríamos de querer que um segundo ou terceiro filhos estudassem, se formassem e fossem felizes porque essa concessão se destinava apenas ao primeiro filho? Porque então políticos querem ser reeleitos, quando um só mandato lhes seria suficiente? Então querer o que quisemos é demais e descabido para pessoas tão inexpressivas como nós, mas somos convocados a deixar nas urnas o desejo e a necessidade de que se importem com os 4,9 milhões de idosos e doentes no Ceará, numa visão macro. Numa visão micro, éramos apenas 38 pacientes que precisavam de um ônibus para lembrar-lhes de que ainda estão vivos. Felizes os que têm a certeza de que serão cuidados na velhice e na doença.

Sem mais para o momento, deixamos aqui os nossos agradecimentos pelas tentativas de solução do problema que, a bem da verdade, valeu a pena esse encontro. Obrigada,

Jaqueline Sales,

Terapeuta ocupacional e coordenadora do Programa Reviver

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publicado às 23:16



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